não é o caso de analisar os momentos nulos da vida
e remetê-los – por selos – para a lista de vaidades atadas
não é hora de correr às festas feliz feliz – por entendê-las bravas
nem flanar indiferente como costuma ser o tubarão ao comensal
é hora de estampar nas folhas dos jornais o vir a ser
tempo de gritar até a rouquidão estraçalhar as cordas vogais
restando apenas consoantes para o discurso nulo ser articulado
o caso é o caos e por onde ele se espraia há de se esperar ternura
da ternura ao caos – do caos à lama – da lama ao sopro inicial
todo lance de dados emite um pensamento fatal
a idéia virou ideia e não faço a mínima onde anda o rastro de lua de ontem
o rastro que a lua tatuou no meu peito molhado onde foi se esconder?
não se trata também de dar nome aos bois – troco aos trecos ou veneno às traças
trata-se – sim – de um termo onde passamos a entender que certas coisas
estão de antemão previstas nos contratos da vida
trata-se de ser pungente e faceiro – voraz e verdadeiro
e mesmo ao sê-lo – não contar pedriscos no reboco da mágoa
trata-se de ter metro e régua e com eles levantar paredes d’água
domingo, 12 de abril de 2009
terça-feira, 3 de março de 2009
SOBRE A VARIANTE ACONDICIONADA
e quando não há nada a escrever?
e quando as palavras – todas que cabem no alfabeto – te traem
ao buscar na ponta dos dedos de outros
e outras
o exercício das suas afecções?
e quando as palavras não fogem
– mas embaralham as letras entre si –
deixando para ti
apenas a possibilidade de calar
– boca cerrada
ou a indefectível cara de sujeito boquiaberto?
e quando a palavra boi é escrita e vês nela uma flor?
e se a ternura derramada em cada gesto teu for transformada em monotonia?
e se tua epopéia não passar de uma canção-alpiste?
e se te disserem – e provarem – que tudo que você pensa escrever
já existe?
e se o palhaço for ao circo determinado em fazer todo mundo triste?
e quando as palavras – todas que cabem no alfabeto – te traem
ao buscar na ponta dos dedos de outros
e outras
o exercício das suas afecções?
e quando as palavras não fogem
– mas embaralham as letras entre si –
deixando para ti
apenas a possibilidade de calar
– boca cerrada
ou a indefectível cara de sujeito boquiaberto?
e quando a palavra boi é escrita e vês nela uma flor?
e se a ternura derramada em cada gesto teu for transformada em monotonia?
e se tua epopéia não passar de uma canção-alpiste?
e se te disserem – e provarem – que tudo que você pensa escrever
já existe?
e se o palhaço for ao circo determinado em fazer todo mundo triste?
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
SOBRE A RELIGIÃO DO NADA (de Paulo Futeco)
SOBRE A RELIGIÃO DO NADA
QUEM NÃO PAGA PROMESSA
VAI PRO SERESA
Poema deboche do grande poeta e amigo Paulo Futeco, safra 2008.
QUEM NÃO PAGA PROMESSA
VAI PRO SERESA
Poema deboche do grande poeta e amigo Paulo Futeco, safra 2008.
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
PROSA
Uma procura pode nos levar por caminhos que desembocam em encontros inesperados. Busquei em todos os arquivos que tenho dois poemas – na verdade surgiram como um mas eu os desmembrei – para enviá-los a um amigo compositor que quer musicá-los. Falam de cortar as unhas com metralhadoras.
Pois bem, la busqueda me proporcionou encontrar três contos curtos e antigos que posto agora pra vocês. O primeiro é PERTO DA MANHÃ QUE SURGE. Foi escrito em 1995 e tem, portanto, 13 anos. Ele guarda muito do que eu sentia aos 25. Algumas coisas que eu sentia há 13 anos ainda reverberam em mim. Nele, ao nascer do dia, um homem guia seu carro pelas ruas vazias da cidade onde vive.
O outro é NO ESCURO EM SILÊNCIO, mas bem poderia se chamar “O amor mata”. Só que, aí, pareceria título de bolero sangrento ou capítulo de narrativa romântica do Tarantino. Tudo acontece em um trapézio circense. Foi escrito em 1998, quando vivi e trabalhei em Ouro Preto.
At last, but not least, MEU AFETO NO TEU GESTO. Trata-se de uma brincadeira, séria, com certa passagem da Mitologia Grega. Também da safra 98, foi resultado de algumas leituras de Michel Tournier, escritor francês que tem uma proposta muito interessante. Grosso modo, ao menos nos livros que conheci, Tournier reconta, refaz e/ou reinventa mitos ou clássicos da literatura. Assim, GILLES E JEANNE fala do amor que o bestial Gilles de Rais nutriu pela doce Joana D’arc. ELEAZER OU A FONTE E A SARÇA reconta o mito hebreu de Moisés e a travessia do deserto no oeste americano do século XIX. SEXTA-FEIRA OU OS LIMBOS DO PACÍFICO apresenta uma visão particular de Robinson Crusoé e Sexta-feira.
Resolvi postá-los porque, apesar da distância, creio que os três têm coisas a dizer.
PERTO DA MANHÃ QUE SURGE
As ruas da triste cidade estavam vazias. Uma madrugada inteira cabia dentro do meu peito, arfando no banco do carro. Parecia que as pessoas nunca mais sairiam de casa, nem as portas dos comércios, bancos ou escolas seriam abertas, tamanha desolação.
Nada mais a ser dito sobre a cidade. A não ser que todos os bueiros espumavam um caldo grosso, fétido, que parecia fazer parte de mim. Secularmente corrompido, precisaria de mais uma centena de anos para rememorar tudo que me acontecera até aquele instante. O caldo é o registro da memória dos dejetos e paixões da cidade. Nas gavetas da minha memória, chaves que não abrem a porta do descanso.
Curvas e curvas da cidade mole e gasta. Parece que me persigo há muito tempo e, a cada segundo, estou prestes a me alcançar. De dentro do carro vejo o sol aparecer por trás do porto. Dizem daqueles que vivem em cidades portuárias a propulsão a ganhar mundo, sem pouso ou faixa de boas vindas. Para além do porto, apenas o sol se precipita. E o oceano, onde bóia indefesa e inescrupulosa a ilha. O futuro? A próxima curva, com o pedal do acelerador na boca.
Mais uma vez tenho certeza de ter morrido em algum instante há dez dias, um ano ou quinze. E mais uma vez recusei a oferta, dei um galão de azeite virgem para minha própria sorte. Recusei morrer até agora, apesar de ter morrido todas essas vezes. Minha mente criou uma realidade paralela, onde sempre logrei escapar do fim. Quando criança, na bicicleta que acreditei não ver esmagada pelo ônibus, ano passado, ao bater com a cabeça no fundo da piscina, há duas semanas, quando levantei da cama no meio da madrugada para beber água e a moldura pesada do quadro desabou em cima do travesseiro. Morri essas e outras vezes, e em todas elas sequei o mesmo corte.
Certamente fui covarde e corajoso. Ao contrário de todos os fantasmas, a assombrar a realidade preferi criar uma realidade que me assombrasse.
O ronco do carro bem perto da minha tosse. Começo a perder o controle sobre essa fantasia hipócrita. Dou agora o máximo que julgo possível, por querer e ser forçado a romper este lacre viscoso. Ouso renegar as mortes nas quais me cristalizei. Continuo rodando sem parar pela cidade. Os faróis abrem ante minha presença. Sinto que poderia, num estrondo orgulhoso, romper o músculo do lacre, encontrar a verdade despida e fria da sorte que não acolhi em meus braços.
Passo a marcha errada. Engasgado, o motor me ratifica. Respirando no imóvel consigo vislumbrar minha face de relance pelo retrovisor. Com a mão direita abro o recipiente e espalho gasolina pelos bancos do carro, depois da curva, bem antes da chuva. O sol vai arder sobre as ruas da cidade. As janelas dos edifícios parecem apontar na minha direção, acusatoriamente. No banco do carona minha sombra sorri. Estamos bentos, quites. Empapados pelos raios de sol e pelo combustível, eu e minha sombra damos juntos uma sonora gargalhada. Não é tão difícil riscar o fósforo com uma das mãos no volante. Daqui a pouco, parece que vai ser o fim.
NO ESCURO EM SILÊNCIO
Eu te avisei: Não!, mas nunca fui bom em dar avisos, servir de exemplo, nem fodendo, meu amor. Daí que restou apenas ser duro novamente, e foram poucas vezes em que agi assim, porque me corre por dentro muito mais seiva do que pressupõe a casca, que é bem fininha, e pode inclusive romper se as unhas que roçarem a superfície forem turvas. Pensei em te mandar algumas linhas compulsivas para tratar do assunto, que a palavra falada nunca foi meu forte você descobriu sem precisar de indícios, sem precisar motivos, mas sairia tudo muito lírico, e lirismo agora não é o caso. O caos é o caso, ainda que seja um caos vagaroso em se anunciar, um tipo de caos que permite aos fantoches observar a cena com acuidade, apontando assim às situações gratuitas com imparcialidade, e às situações forçadas com ríspida desfaçatez. Assim será, foi sua vez de falar. O tremor das mãos não acompanhou a firmeza da voz. O movimento não fora ensaiado, o gesto belicoso poderia ser interpretado como uma afronta ao que ditava a coreografia, mas convenhamos, sempre houve talento a farfalhar para o improviso, e o público, ora, o público poderia entender tudo como um gesto de esperança no novo, no esforço por romper as tradições que engessaram tantos espetáculos, tanto artistas quanto críticos, e tantas platéias. Apenas ela, bonequinha, apenas a platéia pode silvar no escuro em silêncio, determinando indelevelmente o que presta e o que não presta. Foi assim que ao vôo sobreveio o rápido flutuar, uma síncope este breve espaço, e ao flutuar sobreveio a queda.
MEU AFETO NO TEU GESTO
A minha casa era a casa de um monstro. Monstruosa lhe pareceria aos olhos, as paredes escuras e as infindáveis escadas, levando de um nível a outro, e entre os dois ainda uma brecha, uma saída pela qual espera-se que uma pessoa rasteje, peito arfando e língua lambendo a rés do chão, e então chegamos a um recinto escuro, úmido, de onde haveria mais um corredor, ou uma parede que acabaria em si mesma, em outro nível ou em outra escada.
Assim era minha morada por toda sua extensão, a única que conheci, pois para lá fui muito pequeno, apartado de mãe e pai, longe da luz do sol ou do marulho do lado de fora. Minha casa, minha amante fria e silenciosa, minha mãe sem afago, meu pai sem olhos. As salas e corredores infindáveis, as brechas e os recintos, de proporções variadas, meu lar.
Cresci, e urrei silente por muitas vezes, até que meu urro cresceu, e eu, encorpado de voz e tórax, comecei a receber visitas. Podia ouvir com clareza as diferentes tonalidades dos que vinham trazer e dos que eram trazidos. Deixava de lado meu brinquedo imaginário, o canto em que permaneci quieto por horas, então meu sangue acelerava e esquentava, e tudo era vontade de correr até o que imaginava ser alguém. Os que traziam voltavam apressados, podia sentir o cheiro e as vozes pequenas na distância, como se tivessem voltado na frente de seus donos.
Os que permaneciam, raras exceções, espalhavam-se atônitos, correndo e gritando tanto que confundiam meus ouvidos precisos, infalíveis. Corria também até eles, alegria indisfarçada e braços abertos ao espaço caloroso de um abraço. Algumas vezes encontrava-os em duplas, ou trios, abraçados como se estivessem a proteger-se do frio, sim minha casa é muito úmida, mas venham cá, há um lugar, do lado de lá daquela parede, onde é possível pegar uma réstia de sol.
Começavam a correr, sim, vamos brincar –dêem as mãos para não se perderem. E ao encontrá-los eu os abraçava com tanta ternura, que eles ficavam inertes e dormentes, sono profundo que não ousaria acordar. Durmam bem, tentava dizer. Às vezes encontrava um solitário, a língua nervosa na áspera pedra, vá embora, era o que sempre diziam, e eu realmente ia, ficava de longe olhando e imaginando que jogo seria aquele, meter-se entre uma passagem tão estreita, gritando, até ficar sem voz, até arfar, até dormir, como os outros, e não mais levantar.
Eles vinham em levas, pares e pares de amigos a passear nas trevas e pedras da minha casa. Procurei, depois de longo tempo e muitas visitas, um lugar ideal para botar os dorminhocos, e mantinha acesa a ansiedade por vê-los despertar, e ficar juntos. O tempo ia. Meus amigos dormiam.
Um dia, ouvi ao despertar uma única voz, um único odor, inconfundível. Então você veio. Você que ficará e falará comigo, venha e veja, estão todos dormindo. Venha. Espero há tempos. Ouço o som dos passos perto e longe, a respiração ofegante e os desencontros, não pude dizer, há muitas paredes nesta casa, e aberturas que levam e trazem ao mesmo ponto. Nos procuramos por horas e quase tontos chegamos ao mesmo recinto.
Pronto, nos vimos. Pode soltar o fio. Paramos. O gesto se espalha. Você avança e na sua face vejo a minha cara. Estou aí, saltando e atacando entre panos e sandálias, congelando o instante que cala a dúvida que nos separa. Colhemos o louro e o cadafalso. Triunfante, caio, e vejo meus olhos fitando a queda, o arrastar de unhas na pedra, tombo uma vez, e duas, e muitas, até desistir, exausto. Estou em você amigo, a fera com quem brigava. Antes de dar o último suspiro, encolho meu corpo, até fechar um aro, um círculo. Um mugido grave e vago ecoa nas paredes que por tanto tempo me abrigaram. O labirinto não esperará por mais ninguém.
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